Artigos e Ideias

Guerra de Narrativas e Credibilidade Jornalística

Em uma sociedade aberta, a imprensa tem papel central na informação do público sobre a realidade social e política. Sem acesso a informação de qualidade, o indivíduo terá enorme dificuldade em formar uma visão coerente da realidade e participar de forma construtiva dos processos democráticos de organização da sociedade, que não se limitam a processos eleitorais. Tradicionalmente um quase-monopólio da imprensa — escrita ou falada — a distribuição de informação factual ou de opinião tem ocorrido cada vez mais de forma direta, possibilitada pela expansão do acesso à internet e a proliferação de blogs e redes sociais.

Dois critérios fundamentais para avaliar a qualidade da informação são a objetividade dos fatos descritos e sua separação clara do conteúdo opinativo. Uma notícia busca apresentar um fato, mesmo que apoiada por opiniões, interpretações, contextualização ou outras formas de mediação entre a audiência e o fato. Essas expressões não-factuais, no entanto, devem ser claramente indicadas como tal, não devendo se imiscuir na descrição dos fatos em si. Um editorial, por sua vez, parte da premissa de que é uma peça de opinião e que, portanto, a qualidade central do conteúdo apresentado será uma interpretação particular dos fatos. Mas mesmo o conteúdo opinativo precisa, para ser honesto, almejar objetividade na descrição dos fatos que contiver.

Não pretendo propor que seja possível produzir um noticiário completamente objetivo, sem qualquer vestígio de subjetividade. Há fatos que não se revelam com clareza. E há limitações em nossa própria natureza que impedem mesmo o observador bem-intencionado de descrever a realidade sem qualquer viés. O que quero destacar é que há uma fronteira, embora imprecisa, que distingue a apresentação da realidade factual, ainda que imperfeita, e a elaboração intelectual sobre essa realidade. E que a honestidade intelectual e jornalística exige ao menos um esforço na busca da descrição objetiva da realidade factual. Assim, independentemente das perspectivas editoriais de um veículo de imprensa ou das inclinações de seu público, o segmento factual do noticiário, ao se ancorar, mesmo que imperfeitamente, numa pretensão de objetividade, deve buscar ser um fator unificador descritivo da realidade, cujos acréscimos interpretativos estejam claramente destacados como opinião.

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Já há muito tempo, e mais aceleradamente após a difusão da internet e das redes sociais, essa demarcação tem se desfeito, com a crescente introdução de subjetividade na apresentação de conteúdos supostamente factuais, sem que isso seja explicitamente declarado ao público. Ora de forma sutil e sofisticada, ora tosca e atabalhoada, o noticiário afasta-se progressivamente de qualquer pretensão de objetividade na apresentação dos fatos, com cada veículo promovendo sua descrição deliberadamente enviesada da realidade.

A esse afastamento de uma unidade descritiva reconhecível por todos se dá o nome de “guerra de narrativas”. A disputa, portanto, não se dá sobre o conteúdo explicitamente opinativo ou editorial veiculado pela imprensa, mas precisamente sobre o valor factual das diversas descrições da realidade ainda apresentadas sob o rótulo de “fatos” ou “notícia”, embora cada vez mais incongruentes.

Em alguma medida, esse problema sempre existiu, mas se tornou dantesco após o advento das redes sociais e a reação dos veículos tradicionais ao processo de desintermediação entre a realidade e o público alcançado por essas redes, como veremos adiante.

O Problema da Parcialidade na Imprensa. É Possível Ser Imparcial?

Ninguém é ingênuo ao ponto de acreditar em imparcialidade absoluta. Mesmo o indivíduo que busca honestamente descrever os fatos humanos de forma completamente isenta não conseguirá fazê-lo. Isso, no entanto, não equivale a abandonar a ideia de imparcialidade como marco referencial a partir do qual se pode medir as manifestações concretas dos indivíduos. Assim, poderemos julgar as diferentes narrativas a partir de sua maior proximidade ou afastamento desse ideal.

O conteúdo jornalístico apresentado como relato de fatos deveria almejar a alto grau de objetividade, o que não é senão outra forma de pensar em imparcialidade. O jornalista que escreve para o noticiário não deve mentir sobre o que descobriu. Tampouco deve distorcer as conexões que encontra entre os fatos ou omitir informações de que disponha e que sejam críticas para a compreensão dessas conexões. No artigo de opinião essa limitação não é tão estrita, sendo normalmente aceitável, embora dentro de um senso de razoabilidade, arranjar os fatos disponíveis para tentar persuadir sua audiência. Assim, é legítimo que o editorialista ou colunista de opinião busque usar os fatos disponíveis para defender suas teses de que o governo atual é incompetente ou que o comunismo é o melhor sistema político, mas é desonesto falsificar o noticiário para corroborar essas teses.

Ainda assim, mesmo a objetividade absoluta no relato de fatos específicos não seria suficiente para realizar uma cobertura completamente imparcial. Esse ponto é destacado por Antonio Gramsci, que cita em um de seus cadernos uma passagem dos Annali dell’Italia cattolica

“Em sentido lato, o jornal ‘católico’ (ou sobretudo ‘escrito por católicos’) é o que não contém nada contra a doutrina e a moral católicas, e segue e defende suas normas. Dentro de tais linhas, o jornal pode defender orientações políticas, econômico-sociais ou científicas. Já o jornal ‘católico’ em sentido estrito é o que, de acordo com a autoridade eclesiástica, tem como finalidade direta um eficaz apostolado social cristão, a serviço da Igreja e em apoio à Ação Católica.”

A. Gramsci, Cadernos do Cárcere, vol. 2, pp. 196-7, ed. Civilização Brasileira.

Percebe-se por essa passagem como o problema da parcialidade é mais complexo do que à primeira vista aparenta. Os dois tipos de jornal apontados buscam a promoção de uma determinada visão de mundo (neste caso, o catolicismo), embora um o faça pela manifestação expressa de opiniões favoráveis às doutrinas católicas e o outro, pela supressão de fatos e opiniões que as contrariem. O jornal que apenas suprime os fatos indesejáveis poderia, hipoteticamente, publicar apenas notícias perfeitamente objetivas e ainda assim estaria promovendo uma visão particular da realidade.

Gramsci usa o exemplo acima para descrever como o conteúdo partidário pode ser transmitido de diversas formas, para alcançar públicos específicos. Segundo Gramsci:

Distingue-se, em suma, entre o chamado jornal de informação ou “sem partido” explícito e o jornal de opinião, o órgão oficial de um determinado partido; ou seja, entre o jornal para as massas populares ou o jornal “popular” e aquele dedicado a um público necessariamente restrito.

Gramsci, op. cit.

Se estiver atento a essa realidade, o indivíduo que busca se informar examinará as posições de cada veículo singular e poderá consultar fontes adicionais para formar uma visão mais completa da realidade por trás do noticiário, preenchendo assim as lacunas descritivas que resultam da seleção do que é apresentado ou omitido. Essa ação corretiva, no entanto, só será frutífera se os fatos apresentados forem verdadeiros. Aqui começamos a entrar no principal problema da imprensa contemporânea.

Meia Verdade Também É Mentira

Como esbocei acima, existe uma distinção essencial entre a apresentação de fatos como descrição da realidade e a apresentação de opiniões com objetivo de persuadir a audiência a aceitar uma interpretação particular dessa realidade. 

Há diversas formas de apresentar descrições falaciosas da realidade que prescindem do uso de informações completamente fabricadas. Na verdade, a mentira crua, sem qualquer ponto de ancoragem na realidade, é raramente utilizada. A mentira crua sobre um fato costuma ser facilmente refutável, o que desgasta a credibilidade do veículo que a propaga e pode gerar consequências jurídicas, especialmente se envolver calúnia ou outras formas puníveis de desinformação.

Como vimos acima, outra maneira de informar o público com parcialidade é a omissão de fatos selecionados, mas o potencial de influência desse método sobre a opinião do público é limitado, especialmente se as informações apresentadas forem factuais. A construção da narrativa por omissão é mais útil para evitar melindrar o público habitual do veículo e reforçar sua confiança na narrativa pregressa do que propriamente para induzi-lo a alcançar as conclusões desejadas.

A construção de narrativas de persuasão, que buscam ampliar o alcance de determinados interesses ou ideologias, faz uso mais intenso de mecanismos como a seleção indutiva e a distorção. A seleção indutiva é uma forma mais sofisticada de omissão, em que alguns fatos são selecionados e apresentados com certa organização e adição de “explicações” ou “contextualizações” que induzem o público a conclusões enviesadas. Já a distorção opera pela manipulação da própria descrição dos fatos, que são apresentados de forma a não mais corresponder à realidade, embora permaneçam parcialmente ancorados nela.

É preciso assinalar que os argumentos aqui apresentados pressupõem ação consciente de quem organiza e apresenta a informação. O jornalista ou influenciador que acredita estar apresentando uma descrição fiel da realidade não mente, erra. Diferentemente do influenciador ou do jornalista que escreve uma peça de opinião, no entanto, aquele que apresenta seu conteúdo como notícia tem o dever moral de refinar e corroborar seu material antes de promovê-lo como factual.

A Desintermediação do Acesso a Informação

Até pouco tempo atrás, quase toda a informação que chegava ao público era processada e canalizada por jornais, revistas, redes de rádio e televisão ou outros veículos de comunicação. Hoje qualquer um pode iniciar um blog ou newsletter, um canal de vídeo, e, se agradar ao público, alcançar audiência igual ou maior do que a de estrelas da televisão e da grande mídia. 

A expansão da internet e das novas tecnologias de comunicação direta apoiadas na rede global possibilitaram uma ampliação incomensurável do acesso de qualquer pessoa ao grande público e, por outro lado, do público a qualquer pessoa, sem intermediação dos controladores dos veículos tradicionais de imprensa e mídia. Qualquer um pode publicar suas ideias e alcançar multidões. E qualquer um pode se informar onde e com quem quiser, seja com um influenciador com milhões de seguidores, seja com um tuiteiro com duas dúzias.

Um aspecto do sistema pré-internet era que os veículos tradicionais operavam como grandes filtros que limitavam o acesso ao público. O acesso de um jornalista ou influenciador ao público era parcialmente subordinado a sua capacidade de apresentar conteúdos ao menos minimamente confiáveis. A popularidade e a respeitabilidade do “informador” eram mediadas por camadas de outros indivíduos que supostamente tinham um mínimo de formação e discernimento. É claro que esses filtros não impediam uma cobertura enviesada dos fatos, mas possibilitavam ao menos um menor distanciamento da realidade objetiva, no que concerne ao noticiário. Os excessos eram mais facilmente eliminados. A proliferação de indivíduos e canais “independentes” rompeu esses filtros, ao permitir a disseminação de conteúdos informativos de qualidade muito diversa, boa parte dos quais sem qualquer pretensão de informar objetivamente. Muitos, diria, patentemente desonestos. 

Outra consequência grave dessa multiplicação de fontes de informação é a pressão sobre os veículos tradicionais para reduzir a qualidade de seus próprios filtros, afastando-se gradualmente de sua ancoragem na realidade factual. Por um lado, a honestidade intelectual cede espaço à construção de narrativas; por outro, apenas aparentemente contraditório, a grande mídia inicia uma cruzada contra a falta de objetividade, a distorção dos fatos, ou a classe difusa de informação fabricada ou distorcida apelidada de fake news.

Sem poder mais controlar o acesso do público às mensagens, a grande mídia tenta agora regular a legitimidade de quem as emite.

Esse processo de desintermediação do acesso a fatos e opiniões tem levado a imprensa tradicional a buscar formas de reafirmar sua autoridade — como controladora dos fluxos de informação — e sua credibilidade, agora mais facilmente contestável e desafiada por narrativas conflitantes. Ambos os objetivos são atacados conjuntamente por duas abordagens da grande mídia com relação às novas mídias e influenciadores independentes. Por um lado, busca-se promover a ideia de que só uma grande estrutura é capaz de oferecer informação de qualidade; por outro, busca-se causar dano à reputação dos novos concorrentes. Um dos mecanismos usados para alcançar ambos os objetivos são as “agências de verificação de fatos”, que simultaneamente apresentam os veículos colaboradores como fonte de autoridade e seus concorrentes como propagadores de desinformação ou fake news.

Em certa medida, o processo de depuração promovido por essas agências poderia ser positivo, ao expor as formas mais extremas de distorção e fabricação de narrativas em confronto com a realidade, mas o que acaba ocorrendo é que se tornam ferramentas de supressão da concorrência ou de conteúdos e informações que contrariem o interesse de seus grupos controladores, quando, sozinhas ou em coordenação com as grandes plataformas (Facebook, Twitter, etc.), escorregam da posição de “corregedores” para a de censores. Não é sem importância o fato de que os veículos que integram essas agências de verificação nunca corrijam uns aos outros.

Uma consequência adicional do processo de desintermediação do acesso a informação, diretamente relacionada com o que descrevi acima, é o desenvolvimento de uma preocupação obsessiva, na grande imprensa, pela aparência de consistência interna do conteúdo informativo ou jornalístico que produzem. Isso se reflete em uma diversidade cada vez menor de opiniões promovidas por esses veículos, o que dá a seu público uma percepção de consistência narrativa. Essa consistência é vendida ao público como reflexo da qualidade do conteúdo jornalístico produzido, enquanto é, na verdade, apenas aparente, pois ancorada em uma curadoria dos fatos narrados.

Isso não significa que as grandes redações publicarão apenas um ponto de vista. Na verdade, são os pequenos e independentes que costumam apresentar pontos de vista únicos, por serem dedicados a objetivos específicos ou simplesmente por falta de recursos para publicar uma gama ampla de conteúdos. Já nos grandes veículos será possível encontrar sempre opiniões em contradição com a narrativa principal daqueles veículos, mas essas opiniões não terão o mesmo, pois apenas cumprem o papel de permitir a esses veículos afirmar que são plurais e democráticos, que dão voz a todos. 

Uma cobertura que apresente com o mesmo destaque todas as facetas de um tema ainda em fluidez (um tema cujas implicações não estão completamente reveladas ou sobre o qual não se tenha alcançado consenso ao menos parcial) será necessariamente fragmentada e contraditória, contendo diferentes perspectivas e, principalmente, um conjunto de fatos cuja relação não é ainda clara ou estabelecida. Uma tal cobertura, que apresente uma “realidade em aberto” ou “em desenvolvimento” será talvez bem recebida por um público científico ou acadêmico, acostumado a pensar sem conclusões imediatas, mas transmitirá ao público em geral uma percepção desconfortável — porventura intolerável — de inconsistência.

A ênfase em determinadas perspectivas e rejeição de outras contribui para que os veículos transmitam uma imagem de consistência e, consequentemente, de confiabilidade a seu público, livrando-o em grande medida do esforço intelectual e psicológico necessário para absorver e interpretar fatos e conceitos não sistematicamente organizados. Acessoriamente, será permitida a incorporação de uma parcela de fatos e opiniões em contradição com a narrativa principal, com o objetivo de dar ao público um módico de autonomia, que lhe permita ter a sensação de estar desvendando e interpretando a realidade a partir de sua própria perspectiva, além de reforçar sua percepção da confiabilidade do veículo, como apontado acima.

Esse ciclo de delineamento de narrativa, ilusão de autonomia intelectual do indivíduo e reforço da percepção de credibilidade dos veículos gera um movimento de retro-alimentação do próprio ciclo, em que o público, sentindo-se valorizado pelo veículo, tende a conferir-lhe mais credibilidade e atribuir-lhe preferência como fonte de informação, levando o veículo a alimentar seu público com “mais do mesmo”. Assim retro-alimentados, público e veículo tenderão a se movimentar juntos em uma determinada direção, tornando a cobertura jornalística desse veículo cada vez mais enviesada. Simultaneamente, ocorrerá um processo de transformação da audiência do veículo, com a agregação de novos segmentos do público agora alcançados pela construção narrativa em destaque e a depuração daqueles segmentos que não se adaptam à narrativa promovida. Em suma, instala-se uma tendência de afastamento de uma descrição imparcial da realidade — daquele ideal de objetividade mencionado no início — tanto pelo público como pelo veículo, que se satisfazem na apreciação de uma descrição cada vez mais particular dessa realidade.

Esse ciclo contínuo de afastamento da realidade poderá encontrar limite em qualquer dos lados dessa relação simbiótica entre público e veículo. No veículo, a depender da decisão deliberada de seus editores, que temerão o sacrifício final de sua credibilidade no longo prazo; ou no público, que encontrará em outras narrativas ou em seu próprio discernimento o que poderíamos chamar de “limites de credulidade”. Em muitos casos, no entanto, rompe-se uma fronteira em que esses movimentos de aquisição/depuração do público e radicalização do conjunto público/veículo alcançam um ponto de onde não há retorno, e o veículo e seu público deslizam juntos para um afastamento extremo da unidade do real, em que a necessidade de informação passa a ser suprida pela narrativa em si, e não mais pela cobertura jornalística como busca de uma descrição da realidade.

Para exemplificar essa polarização extrema, remeto o leitor a uma pesquisa do Pew Research Center, nos Estados Unidos, que revela que 93% do público da rede Fox News se declara republicano, contra 6% de democratas, ao passo que 95% do público da MSNBC é democrata, contra 5% de republicanos (os dados para o New York Times são 91% democratas e 7% republicanos). Esse nível extremo de polarização é dificilmente reversível, pois qualquer tentativa de dar mais equilíbrio à cobertura ensejará severa perda de assinantes e da receita de assinaturas e publicidade correspondente. Rompida a fronteira da radicalização, o veículo deixa de conduzir sozinho seu público e torna-se em parte seu refém, passando a ter enormes incentivos para continuar alimentando seu público com as narrativas em que desejam acreditar, e abandonando qualquer pretensão de informá-lo sobre a realidade.

*Este artigo foi publicado originalmente na 5a edição da newsletter Fuga para a Realidade.

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