A revista The Economist publicou artigo em que alerta para uma potencial crise habitacional em gestação no Reino Unido. A revista aponta que, em 2019, um quinto das pessoas entre 35 e 64 anos moravam em unidades residenciais alugadas de proprietários privados, o dobro do que se verificava uma década antes. Isso contrasta com a proporção das pessoas com mais de 65 anos atualmente morando nessas condições, cerca de uma em vinte.
Esses números mostram uma reversão da tendência de aquisição de residência própria, como o que ocorreu a partir dos anos 80 e 90, em consequência da facilitação de financiamentos imobiliários promovida pelo governo Margaret Thatcher. Ainda segundo a Economist, a projeção de uma proporção crescente de aposentados que precisam pagar aluguel deve se tornar um problema, pois boa parte deles não será capaz de arcar com a despesa sem queda significativa do seu padrão de vida. Entre as soluções que se vislumbram estão subsídios aos aluguéis e a oferta de residências estatais (“council housing”).
Considerando o impacto político desse cenário, a matéria destaca que isso pode apresentar um desafio aos conservadores, pois embora o envelhecimento da população contribua para aumentar o apoio a candidatos conservadores, pessoas que moram de aluguel inclinam-se a votar nos trabalhistas. Segundo a revista, essa seria a razão por que os conservadores favorecem políticas para facilitar a aquisição de residência própria.
A matéria deixa de observar que comprar a “casa própria” ou morar de aluguel não são, para a maior parte das pessoas, meras alternativas de estilo de vida, mas resultado de disparidades de poupança privada acumulada. A perda de padrão de vida daqueles que se aposentam sem ter residência própria, em comparação com aqueles que a adquiriram, não é senão resultado do diferencial de poupança (ou de consumo) ao longo da vida.
À parte as disputas políticas, o estímulo à aquisição de imóvel próprio apresenta benefícios para os indivíduos e a sociedade. A aquisição de imóveis residenciais próprios aumenta a segurança dos indivíduos na velhice, enquanto reduz a demanda por subsídios governamentais ou outras formas de assistencialismo. Mesmo que seja preciso prover facilidades de financiamento, eventual subsídio à aquisição será potencialmente menos custoso, se somados todos os impactos financeiros e políticos, do que subsidiar os indivíduos na velhice, especialmente se isso for feito por meio pela oferta de imóveis públicos. Há também um importante aspecto pedagógico no estímulo aos indivíduos a que provejam seu próprio futuro. Por fim, ao reduzir a dependência do Estado, políticas de incentivo à poupança reduzem o potencial de aliciamento de idosos vulneráveis por políticos e ideólogos de viés socialista ou populista.
Deixar mensagem para Cesar Nascimento Cancelar resposta