Todo mundo diz que quer o melhor para a sociedade, que vota pensando na coletividade, que pensa nos mais pobres. Mas é isso mesmo? Na hora de escolher seu candidato, você está pensando naquele que promete um aumento para o seu salário? Ou pensa primeiro no contexto geral, no que ele propõe para a economia, em quais são as suas políticas?
Se o candidato promete uma bolsa de estudos para a sua universidade, você vota nele? Ou pensa em quanto isso vai custar em recursos retirados de outros programas educacionais, da educação como um todo? Você vota num candidato porque ele prometeu algum benefício para o seu setor, para a sua empresa?
Ele pretende subsidiar o seu setor, ou prometer uma redução de impostos? Se você é servidor público, vota nele por quê? Porque ele propõe políticas importantes, que vão levar o país para frente, ou porque ele é bom para os funcionários públicos? Se um candidato prometer aumentar os impostos para todo mundo, menos para você, você vota nele?
Não há nada de errado em apoiar propostas ou políticas que nos beneficiem — e não só diretamente. Políticas que nos interessam na vida pessoal e profissional muitas vezes são também políticas amplas, de interesse social, de um segmento da sociedade ou da sociedade como um todo, e que acabam nos beneficiando.
No fim das contas, se a sociedade avança, a gente avança junto. O ideal é ter políticas que empurrem todo mundo para frente. Talvez não ao mesmo tempo — cada grupo anda numa velocidade diferente —, mas todo mundo andando. O que eu quero apontar é que muita gente, às vezes de forma ingênua quanto àquilo que defende, justifica suas decisões, seus apoios e seus votos com base na ideia de que está pensando na coletividade, na sociedade, nos mais pobres.
Mas nem sempre é assim. Muitas vezes estamos honestamente convencidos de que defendemos uma ideia ou um candidato por estarmos altruisticamente interessados em ajudar os outros — pensando não só em nós mesmos, mas no bem da sociedade como um todo, ou no bem daqueles que estão atrás de nós nesse avanço socioeconômico.
Mas vamos fazer um teste. Se, sempre que você defende alguma coisa, você recebe um benefício; se tudo o que você defende sempre te beneficia de uma forma ou de outra, você está realmente pensando na sociedade, nos mais pobres? Ou está apenas justificando suas escolhas com base nesses valores?
Não é possível que todas as ideias, políticas e propostas que você defende acabem te beneficiando e que, ainda assim, você consiga justificar para si mesmo que as defende porque são de interesse social. Se buscamos o interesse social, em alguns momentos temos de entender que o nosso interesse pessoal será afetado negativamente — porque não é possível você sempre ganhar, sempre ter o benefício, e os outros também terem os seus.
Uma parte do problema da formulação de políticas públicas é justamente distribuir custos e benefícios, distribuir o esforço e os resultados entre os componentes da sociedade. Se você sempre se dá bem nas suas propostas, se elas sempre te favorecem, você não está pensando no social, nos mais pobres, no avanço da sociedade como um todo.
Isso é muito difícil de entender e de identificar dentro das nossas próprias ideias, dos nossos pensamentos, da nossa psicologia — porque é difícil encarar que aquilo que buscamos não é tão nobre, ideal ou justificável quanto gostaríamos. Veja bem: eu não quero dizer que seja incorreto defender o interesse próprio.
Você pode votar exclusivamente pensando em si. O que eu digo ser incorreto, ou equivocado, é defender o interesse próprio justificando-o como defesa do interesse coletivo, como uma postura altruística em busca do bem da sociedade, dos mais pobres, dessas coisas. Vou dar um exemplo, do meu pai, para mostrar o que quero dizer com essa separação entre o interesse pessoal e o interesse coletivo.
Meu pai foi engenheiro da empresa de fornecimento de energia elétrica do Rio de Janeiro, a Light, durante boa parte da vida dele — 20, 25 anos. A empresa era estatal e estava sendo privatizada. Eu perguntei a ele, na ocasião — isso já faz muito tempo, ele já morreu faz tempo —: “O que você acha disso, da privatização?”
E ele me respondeu o seguinte: “Da perspectiva pessoal, a privatização é uma catástrofe para mim. Já tenho idade mais avançada, provavelmente serei demitido em algum momento. No mínimo, vou ter uma carga de trabalho muito maior, porque eles vão demitir um monte de gente. Se eu conseguir sobreviver, vou ter que trabalhar muito mais.”
E foi o que aconteceu: foram ofertadas diversas rodadas de planos de demissão voluntária, e ele acabou saindo no terceiro ou quarto plano. Em algum momento, teve de ir embora. Mas ele dizia que, da perspectiva da gestão, da administração da empresa, o correto era privatizar e demitir pelo menos dois terços — porque a empresa tinha gente demais para o trabalho, era ineficiente e jogava dinheiro fora.
E esse dinheiro era público, do contribuinte, porque era uma estatal. Por isso esse exemplo é importante, e eu sempre o guardo comigo: ele soube separar o benefício pessoal dele, o que era melhor para ele individualmente, daquilo que era o benefício para a sociedade — o que era correto da perspectiva do progresso social, do desenvolvimento social, do resultado para a coletividade.
Para ele, era melhor que não se privatizasse. Mas ele não podia defender a permanência da empresa como estatal, porque isso era incorreto da perspectiva da sociedade. Então ele achava que o Estado, o administrador, deveria sim privatizar a empresa, ainda que aquilo fosse muito negativo para ele. É um exemplo pessoal, mas que me serve de base, no qual sempre me ancoro para explicar essa separação entre o interesse pessoal e o interesse coletivo — algo muito difícil de identificar na nossa própria forma de agir, nas nossas decisões.
E eu tento sempre me orientar por isso. É um teste simples, que você mesmo pode fazer para entender se realmente busca o interesse comum, o bem comum, o interesse social, ou apenas o interesse pessoal. E, de novo: é legítimo. Você pode votar no candidato que quiser, naquele que vá buscar o seu interesse.
Se você é servidor público e acha que o candidato A ou B defende o interesse dos servidores, e é isso que te importa, não tem problema — é legítimo, é da democracia, cada um vota naquilo que acha melhor. Agora, se você bate no peito e diz que é “pelo social”, mas no fim das contas tudo o que você defende é algo que vai cair no seu bolso, então você não está defendendo o social: está defendendo o seu interesse pessoal imediato.
Se você realmente defende o social, você também defende, vez ou outra — não sempre —, coisas que acabam não sendo benéficas para você. Não se trata de buscar o que te faça mal; é entender que algumas políticas vão te beneficiar e outras não. Uma das tarefas mais difíceis é justamente compreender a si mesmo, as próprias motivações e objetivos. A gente acredita sempre estar pensando no melhor, pensando nos outros, mas nem sempre é assim.
Esse é um teste simples: veja se, sempre que você defende alguma coisa, quem ganha é você. Se você sempre ganha, então não está defendendo altruisticamente a sociedade, os mais pobres, o que quer que seja. No fundo, e acima de tudo, está defendendo o seu interesse pessoal.
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