No romance 1984, George Orwell descreve um mundo sombrio em que foi suprimida não apenas a liberdade como direito, mas também como possibilidade. Todos os indivíduos se submetem ao que determina o Grande Irmão, embora ignorem sua própria submissão. Doutrinados desde criança, apenas sabem o que o Grande Irmão ensina, apenas acreditam no que ele diz. Winston Smith, personagem principal da obra, é exceção, embora provisória. Seu trabalho no Departamento de Arquivo do Ministério da Verdade abre-lhe os olhos para a falsificação da realidade a que estão todos submetidos. Winston edita notícias antigas para acomodá-las aos novos “fatos” ditados pelo Grande Irmão e seus tecnocratas. Além dos donos do poder, Winston é um dos poucos que, por sua posição peculiar, sabe que tudo que se publica é falso, deformado para atender a quem manda de verdade.
Não vivemos num mundo como de Winston Smith. A distopia de George Orwell foi baseada no totalitarismo soviético, ao menos por ora enterrado. Mas, aqui e acolá, repercutem em nosso cotidiano algumas das situações descritas no livro. Como reencarnações de Winston Smith, vemos veículos de imprensa e jornalistas engajados atuando como se fossem o Ministério da Verdade e seus editores de arquivos.
Vejamos um exemplo recente, exposto pela revista Reason. Segundo a revista, o jornal Washington Post publicou, em 2019, uma matéria sobre a campanha da então pré-candidata democrata a Presidência dos Estados Unidos Kamala Harris. Na época, não pareceu aos editores que mencionar piadas politicamente incorretas contadas pela candidata seria indesejável. Talvez até tenham se divertido ao expor a então senadora, já que ela não tinha qualquer possibilidade de ganhar a disputa. Mas o mundo dá voltas e Kamala Harris se tornou a candidata democrata a vice-presidente, cuja chapa com Joe Biden passou a ter o apoio militante do Washington Post, tornando-se finalmente vencedora nas eleições de 2020.
Que fazer então com a reportagem indesejável? Ora, nada mais simples. Mande-a a um dos editores de arquivos para adaptá-la às necessidades do momento e tudo estará bem. Foi o que fizeram, extirpando da peça tudo de que a retratada pudesse não gostar. Indagados pela reportagem da Reason sobre onde estaria disponível a versão original do texto, os representantes do Washington Post foram irônicos. “A história original continua disponível na versão impressa.” Que alívio! Em 1984, até o material impresso era reeditado.
Duas versões da mesma matéria, a original e a adaptada:


Casos parecidos também ocorrem no Brasil. Por exemplo, em 2011, Fernando Haddad era ministro da Educação do governo Dilma Rousseff. Naquele ano, houve grande polêmica a respeito de cartilha de educação sexual adotada pelo governo para educação de crianças em escolas públicas, apelidada de kit gay. A revista Veja publicou, na época, matéria sobre o assunto, com o título “‘Kit gay’ será reformulado e lançado até fim do ano, diz Haddad”. Em outubro de 2018, quando Haddad disputava com Jair Bolsonaro a Presidência da República, a revista modificou o título da reportagem, removendo o nome de Haddad e incluindo o de Dilma. A revista adicionou a seguinte nota à reportagem: “Esta matéria, publicada em maio de 2011, foi atualizada no dia 13 de outubro de 2018 para a inclusão no título da expressão ‘Governo Dilma’”. A nota diz apenas que o nome da presidente foi adicionado, sem mencionar a exclusão do nome do candidato. O endereço eletrônico da reportagem, no entanto, ainda guarda o título original. Como quase toda a massa de usuários das redes sociais não passa da leitura da manchete, a mudança do título de uma reportagem já é suficiente para reduzir drasticamente o interesse por sua propagação.
Ah, faltou contar o que aconteceu com Winston. No final, esmagado pela força insuportável do Estado opressor, ele se dobra, humilhado, emasculado e convertido em súdito obediente do Grande Irmão.
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