Artigos e Ideias

Tradição e Debate Público no Brasil: Notas Preliminares

Às vezes, ao ver o que se passa em nossa sociedade, na política, na vida cotidiana, percebemos uma aridez de ideias, uma conversa de surdos em que os argumentos parecem ser usados, não para persuasão e esclarecimento, mas como meras justificativas para a defesa de interesses mesquinhos e partidários. As discussões soam viciadas e, com demasiada frequência, como hipocrisia. Ao observar esse cenário, a primeira explicação que normalmente nos ocorre é que políticos e outras figuras públicas são todos oportunistas e aproveitadores. Muitos o são, é verdade, mas a discussão sofre também com um problema de fundo que assola o povo brasileiro, um problema cultural.

O debate público sobre temas políticos e sociais no Brasil é bem diferente do europeu ou americano, na medida em que aqui gravita em torno do presente e do passado recente, enquanto lá fora essas questões são investigadas a partir de uma perspectiva mais ampla, que abarca o passado histórico da nação e o da civilização em que se insere.

Museu Nacional e Biblioteca Nacional em Brasília.
Museu Nacional e Biblioteca Nacional em Brasília. Foto:Matheus Natan/Pexels.com

Americanos e europeus, por exemplo, discutem política, sociedade e cultura dentro do contexto de suas tradições históricas, reportando-se à formação de suas constituições; a suas revoluções e o que significaram; a seus Pais Fundadores, no caso dos americanos; ao Iluminismo, à Cristandade medieval e à tradição greco-romana, no caso de ambos. Seus reinos e repúblicas, o que entendem por democracia, é o resultado de uma longa tradição de investigações e disputas politicas e filosóficas que remontam à Antiguidade Clássica.

Já o brasileiro, quando interroga seu passado no debate sobre questões contemporâneas, costuma recuar ao regime militar de 1964-85, ou talvez aos governos de Getúlio Vargas. O Império é nebuloso e Portugal já não se vê. Muitos parecem ser da opinião de que nossa história e tradições começaram quinhentos anos atrás, numa praia na Bahia.

Isso tem implicação importante em que no Brasil não há uma base sólida e comum de referência a que os diversos interlocutores se reportem em suas contribuições ao debate. Argumentos parecem muitas vezes apoiar-se em si mesmos, em suas próprias origens imediatas ou em alguma corrente intelectual estrangeira de importação recente. No Brasil, não tem raízes a ideia de cultura como legado histórico. Cultura, para o brasileiro, é algo essencialmente contemporâneo e atual. É o aqui e agora. O resultado disso é que boa parte dos argumentos em debate só têm realmente significado para os pequenos círculos de apoiadores de cada causa ou grupo de interesse, só apelam aos que já estão convencidos de sua validade. Não buscam responder a nada, descobrir nada. Sem conversar com uma tradição, não conversam entre si.

Em parte, isso é consequência da visão apontada anteriormente, de que o Brasil surgiu em nossas praias como civilização originária ou que é uma continuidade de civilizações pré-colombianas, não um desdobramento da tradição portuguesa e europeia, embora com aportes significativos de outras civilizações. Isso fica claro no moto muitas vezes repetido por aqueles que veem a História do Brasil como quinhentos anos de exploração de um povo brasileiro por um povo estrangeiro, revelando incapacidade de compreender o longo processo de transposição e subsequente desenvolvimento cultural ocorrido em nossas terras, numa bifurcação da tradição civilizacional luso-europeia, que segue agora rumo independente, porém sem descontinuidade.

Contribui para essa visão de mundo a grande influência do marxismo sobre intelectuais brasileiros durante o século XX. A visão marxista de um futuro utópico só tem espaço para o passado histórico na medida em que ele explicaria a luta de classes como processo natural e necessário do desenvolvimento econômico e social. A humanidade, nessa concepção, sempre se dividiu em opressores e oprimidos. O passado só importa como suporte à profecia da derrocada do capitalismo e como justificativa para ditadura do proletariado, expediente supostamente provisório no caminho da realização utópica. O passado é, portanto, descartável, vil. Só interessam a nova sociedade e o novo homem, que emergirão das cinzas das civilizações pré-comunistas, livres e purificados do estorvo das tradições pregressas.

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