A Democracia na Encruzilhada: Como a Intolerância Vai Destruir Nossa Liberdade

Nos últimos meses, países do Ocidente vêm experimentando ondas crescentes de protestos, cada vez mais violentos. Nos Estados Unidos, caso mais patente desse processo, as manifestações alcançaram um nível de devastação assustador. Embora o estopim da anarquia recente tenha sido a morte de um homem negro por um policial branco, seria ingenuidade acreditar que os protestos que assolam aquele país, e que contaminaram também a Europa, são processos de incubação recente ou são motivados apenas por repulsa ao racismo. Na verdade, são a culminação de décadas de preparação psicológica de largos segmentos da sociedade, que foram convencidos de sua superioridade moral e da necessidade de destruir o que existe para criar o que não conseguiriam descrever.

O que vemos hoje é a ascensão acelerada da intolerância, mas não por aqueles normalmente acusados de autoritarismo, como Donald Trump, mas justamente pelos que protestam por justiça ou igualdade, por aqueles que dizem opor-se à opressão. Os apelos à igualdade e justiça, no entanto, ficam apenas no plano retórico. O que realmente desejam alcançar é a imposição de sua agenda ideológica sobre os demais grupos, submetendo a maioria, dita opressora e obscurantista, à vontade das militâncias raivosas, cujos membros estão convencidos de que são todos altruístas iluminados.

Ativistas do Black Lives Matter assediam clientes de um restaurante em Washington, DC.
Ativistas do Black Lives Matter assediam clientes de um restaurante em Washington, DC.

Os manifestantes de hoje não querem apenas o direito de protestar; querem que você concorde com eles. Não querem apenas o direito de votar em Bernie Sanders ou idolatrar Che Guevara, mas impedir que você vote em Donald Trump ou use um boné MAGA. Essa militância auto-congratulante, convencida de sua superioridade moral e de seu papel reformador, entende-se justificada em usar violência para alcançar seus fins. Estão convencidos de que defendem a democracia ao cercar e assediar pessoas nas ruas, mesmo crianças ou idosos, por exibir símbolos que rejeitam ou pela mera suspeita de acreditar nas ideias erradas. Esses proto-tiranetes não mais se satisfazem com representação e diálogo, mas exigem que você repita seus gestos e palavras de ordem, que erga o punho ou ajoelhe, sob ameaça de violência e talvez morte, como fanáticos que impõem a conversão forçada daqueles que subjugam. Que farão onde alcançarem o poder? Não é difícil imaginar. É seguro que não se tornarão de súbito pacíficos e tolerantes. Ao contrário, justificados por sua própria ascensão, suprimirão toda dissidência.

O rápido desenvolvimento dessa ideologia de viés totalitário conduzirá o Ocidente a escolhas difíceis. No futuro não muito distante, as sociedades terão de decidir entre dois caminhos, ambos piores do que o que vínhamos seguindo até recentemente. Algumas adotarão a via do apaziguamento e da lenta submissão a demandas cada vez mais arbitrárias e conflituosas, até que, pelo voto ou pela violência, chegarão ao inferno utópico já visitado por outras sociedades, em período muito recente para já ter sido esquecido. Serão governadas por pequeno grupo de comissários do povo, que estarão convencidos de que sabem o que é melhor para todos.

Outras sociedades, para evitar o mesmo destino, serão obrigadas a sacrificar algumas liberdades, para suprimir os grupos autoritários e preservar o que for possível de liberdade para o resto da população. Serão impostos limites à liberdade de expressão e extinta a tolerância a intolerantes. Tampouco será isso algo de completamente novo, havendo exemplo recente na repressão do comunismo no “mundo livre”, em reação à ameaça totalitária representada pela União Soviética. Desta vez, no entanto, não haverá dois blocos, como na Guerra Fria, mas um mosaico de países com graus diferentes de liberdade de expressão e manifestação, alguns menos restritivos, outros de caráter essencialmente ditatorial. Assim, caminhamos para uma época em que haverá menos e não mais liberdade, e em que a intolerância reinará, triunfante em alguns lugares, envergonhada em outros.

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Autor: Cesar Nascimento

Cesar Nascimento é diplomata. Instagram/Twitter/Telegram/LinkedIn/Revue: cesarapenas

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