O Protocolo das Aglomerações

No último sábado, 19 de junho, ocorreram manifestações em todo o Brasil contra o presidente Jair Bolsonaro. Mais de 750 mil pessoas teriam participado dos protestos. A oposição, que desde o início da pandemia adotou estratégia de imputar ao presidente culpa pelo avanço da covid-19 no país, criou para si um problema de difícil solução. Como mobilizar seus apoiadores sem se manchar com as mesmas acusações feitas contra o chefe do Executivo? Em que pese o péssimo exemplo de Bolsonaro, que em sua comunicação com o público continuamente minimiza os riscos da doença, não há coerência em passar mais de um ano chamando o presidente de genocida para agora promover aglomerações maiores que as dos governistas. Desde o início da pandemia, cada movimento do presidente foi destacado e criminalizado, de suas visitas a padarias e lanchonetes em Brasília às recentes motociatas sendo promovidas em diversas cidades do país.

Talvez os líderes e organizadores da oposição acreditassem que a pandemia duraria menos do que está durando, e que poderiam iniciar suas manifestações contra o presidente — e a favor de Lula — com antecipação suficiente para campanha eleitoral de 2022, sem o ônus de ser criticados por contribuir para o aumento do número de mortos. O prolongamento da pandemia, com novas ondas e variantes, e a ameaça de uma “terceira via” que dividiria os votos oposicionistas terão levado suas lideranças a adaptar a narrativa, desviando as críticas ao presidente das aglomerações para a escassez de vacinas, e promovendo a falácia — manifestamente “negacionista”, para usar o termo caro às esquerdas — de que há protocolos de segurança para aglomerações. Políticos e jornais de esquerda agora estimulam seus seguidores a se aglomerar, enquanto minimizam as consequências desses atos para a saúde pública, pois os manifestantes estariam usando máscaras e álcool gel. Uma tal Rede Nacional de Médicas e Médicos Populares chegou a publicar um “protocolo” para manifestações, propagado por sites de esquerda, que supostamente ensina “como participar de atos de rua com proteção”. Viva a ciência! Não imagino que serão chamados a depor na CPI da Pandemia.

O duplipensar não é exclusivo de canais abertamente de esquerda, como Brasil 247 e Brasil de Fato. Grandes jornais também aderiram ao “protocolo para aglomerações”. A Folha, por exemplo, publicou que “Em meio a um novo crescimento do número de casos e mortes por Covid-19 no Brasil, a recomendação é que os manifestantes usem máscara (preferencialmente do tipo PFF2), carreguem álcool em gel e mantenham o distanciamento social”.

Se aglomerações causam mortes, todos os que as promovem e participam delas são homicidas (ou “genocidas”), ou não? A meu ver, ambos os lados estão errados em promover manifestações, mas só um é hipócrita. Cumpre destacar que nem todos os opositores do presidente adotaram posição contraditória. Por exemplo, O Antagonista, que bate em Bolsonaro tanto quanto a Folha ou a Globo, afirma ser preciso levar um movimento de “terceira via” às ruas, mas “Daqui a alguns meses, quando a epidemia estiver controlada”.

O avanço da vacinação tende a levar mais gente aos protestos de rua, de ambos os lados da disputa. Lideranças políticas e culturais mais velhas (e influentes) terão menos receio de se contaminar, e serão seguidas pelos mais jovens. Nas manifestações do último sábado já se viram algumas dessas novas-velhas presenças, como Fernando Haddad e Chico Buarque. Lula decidiu não participar, pensando nas consequências de longo prazo para sua campanha presidencialHaddad foi apenas recentemente vacinado, ainda sem imunidade. Chico já havia tomado a primeira dose em março. Muito bom que estejam vacinados, mas eles e outros influenciadores atraem milhares de manifestantes com sua presença nas ruas e na mídia, a maior parte dos quais não estão vacinados. Não se sentem culpados pela contaminação que promovem? Lembremos que Haddad poderia estar na cadeira de Bolsonaro. Seria Haddad também um presidente “genocida”?

Fernando Haddad promove aglomeração contra Bolsonaro em São Paulo.
Fernando Haddad promove aglomeração contra Bolsonaro.

O fato é que a oposição se colocou em situação difícil ao investir na narrativa de que Bolsonaro é “genocida” por promover aglomerações. Como apontei acima, o prolongamento da pandemia deixou-os sem liberdade para reagir aos movimentos em apoio ao presidente. Acabaram diante de duas alternativas ruins: entrar tarde demais na campanha de rua ou assumir o dano à própria imagem, ao promover aglomerações.

Com medo de comprometer suas chances nas eleições, a esquerda decidiu apostar na memória seletiva da população, cansada de pandemia e desemprego. Assim, primeiro colocaram seus soldados na rua, testando a temperatura em manifestações menores e sem o comprometimento público das grandes lideranças. Agora saem em marcha com alguns de seus generais, como Chico e Haddad. Lula, sabiamente, é preservado, enquanto avaliam quanta lama vai respingar nos “genocidas do bem”.

Lula virá para o front apenas depois da última onda de covid ou se as pesquisas de opinião revelarem que não há grande dano em adotar a nova narrativa hipócrita — o que é bastante provável. Aparecerá flanqueado por suas tropas auxiliares do PSOL, PCdoB e outros partidos que estão laboriosamente construindo uma frente ampla, exemplificada pelo recente acordo com o PSB.

Enquanto a atenção do público estava distraída com a terceira via do Luciano Huck e o auto-convite do João Amoedo, a esquerda, sob discreta coordenação do PT, reposicionou mais ao centro dois líderes de partidos radicais, fazendo o centro gravitar para a esquerda e formando uma verdadeira frente ampla contra os conservadores (sejam eles liderados por Bolsonaro ou por qualquer outro).

Ao deixar o PCdoB e o PSOL, Flávio Dino e Marcelo Freixo não deixam de ser comunista ou psolista (o que é a mesma coisa), mas apenas trazem o PSB para uma aliança carnal, provavelmente com pouco custo eleitoral para seus partidos de origem. Não houve mera troca de legenda, mas conquista de território.

Não é preciso destacar que por trás de tudo isso está um acordo com o PT para evitar a fragmentação da esquerda em 2022. Com esse movimento, combatem simultaneamente Bolsonaro e a terceira via. A única grande peça ainda não encaixada é Ciro Gomes, que, por sempre superestimar seu próprio valor e suas chances de eleição, pode ainda dividir os votos da frente anti-Bolsonaro. 

*Este artigo apareceu originalmente na sexta edição da newsletter Fuga para a Realidade.

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Autor: Cesar Nascimento

Cesar Nascimento é diplomata. Instagram/Twitter/Telegram/LinkedIn/Revue: cesarapenas

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