Noticiário Comentado

Verificando os Verificadores: Estadão Distorce Pesquisa para Desmentir Eduardo Bolsonaro

Em 21 de agosto, o deputado federal Eduardo Bolsonaro publicou em seu perfil no Facebook uma foto de um feto acompanhada do seguinte comentário: “O Brasil é o 2º país que mais rejeita o aborto, segundo pesquisa feita mundialmente. No total, 84% dos brasileiros são contra o assassinato de bebês tão amado pela esquerda.” A foto do deputado vinha parcialmente encoberta e marcada como “informação falsa – verificada por verificadores independentes – veja por quê”. Painel de informação adicional afirmava que os verificadores haviam concluído que “as principais afirmações nesta informação são imprecisas em relação aos fatos.” A chamada dizia “Eduardo Bolsonaro exagera número de brasileiros contrários ao aborto”. 

O artigo de “fact-check” foi publicado pelo “verificador independente” Estadão Verifica, na seção de política do Estadão. Abaixo da chamada principal, o jornal afirma que o “Parlamentar distorceu dados de pesquisa de opinião Ipsos, em que 13% dos entrevistados disseram que gravidez não pode ser interrompida em hipótese nenhuma e 21% afirmaram que procedimento só pode ser feito em caso de risco para a mãe”. O texto do artigo começa com a afirmação de que “É falso que 84% dos brasileiros sejam contrários ao aborto”.

Segundo os dados da pesquisa reproduzidos pelo Estadão, 16% dos brasileiros acreditam que o “aborto deve ser permitido sempre que uma mulher decide que quer um”. De cara, percebe-se que esse foi o número que Eduardo Bolsonaro utilizou para chegar aos 84% contrários ao aborto, subtraindo do total de entrevistados aqueles que são incondicionalmente favoráveis ao aborto.

O jornal afirma que a porcentagem indicada pelo deputado é exagerada porque “inclui pessoas que acreditam que o aborto deve ser liberado em casos de estupro ou de risco de vida para a mãe, além de entrevistados que não quiserem ou não souberam responder”, e prossegue dizendo que “ao todo, 54% das pessoas ouvidas demonstraram opiniões mais favoráveis em relação à interrupção da gravidez, e 34% sinalizaram pontos de vista mais contrários”.

De fato, os 12% de indecisos não deveriam ser incluídos no total de pessoas contrárias — ou favoráveis — ao aborto. Feita essa ressalva, veremos que a “checagem” apresentada pelo Estadão distorce muito os dados e deveria, no que lhe concerne, ser veiculada com um alerta de informação errônea.

Pesquisa de opinião sobre aborto. Fonte Ipsos/Estadão. Reprodução.

Para chegar aos 54% de opiniões “mais favoráveis” ao aborto, o jornal agrega aos que são sempre favoráveis aqueles que julgam que o aborto “deve ser permitido em algumas circunstâncias, como se uma mulher foi estuprada”. Isso é uma enorme deturpação do significado central da resposta. Dizer que o aborto deve ser permitido em situações excepcionais, como em caso de estupro, não é ser favorável ao aborto como princípio geral, mas ser sempre contra, salvo em casos raros como esses, que representam uma fração irrisória do total de gestações, e que apresentação dilemas morais adicionais aos que já envolvem o aborto. E, estranhamente, o jornal chega aos 34% que seriam “mais contrários” pela soma dos 12% que não aprovam o aborto em circunstância alguma com 21% que acreditam que o aborto “não deve ser permitido sob quaisquer circunstâncias, exceto quando a vida da mãe está em perigo”. Mas se esse grupo está incluído entre os que se opõem ao aborto, que dizer dos 38% mencionados acima, para os quais há ainda menos situações em que o aborto seria aceitável? 

Vê-se que a matéria interpreta mal os dados, chega a conclusões erradas sobre eles e, consequentemente, sobre a afirmação do parlamentar, a qual se aproxima muito mais do que realmente dizem os dados do que o verificador do Estadão.

Por fim, importa anotar que apenas a acusação de “informação falsa” é aberta ao público. Para ler o artigo do “verificador independente” é preciso ter uma assinatura do Estadão.

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