Noticiário Comentado

Caçada ao Presidente

O Estadão publicou hoje matéria chamada “Caça acuada, caçadores em vigília”, que trata do cerco ao presidente Jair Bolsonaro e que mostra sem embaraço o que se passa hoje no Brasil: há caçadores e caçados. Já no primeiro parágrafo, a jornalista, Rosângela Bittar, resume a situação atual. Os caçadores cercaram a presa, mas ainda não conseguiram pegá-la. “A caça foi avistada, está acuada, mas ainda não pode ser alcançada.” — diz a autora. Não está falando de um criminoso encurralado pela polícia ou um estelionatário de quem os investigadores se aproximam, mas do presidente da República, cuja situação descreve como de “caça acuada”.

O presidente Jair Bolsonaro fala à imprensa no Palácio da Alvorada
O presidente Jair Bolsonaro fala à imprensa no Palácio da Alvorada. Marcello Casal Jr/Agência Brasil

Em seguida, a jornalista apresenta o cenário como o vê, e começa por afirmar que o presidente já não teria mais condições de se reeleger, pois “Sucumbiu junto com os milhões de vítimas da covid-19 e dos desempregados por ela.” Milhões de vítimas? Milhões? Até quem não ficou doente é vítima. Até quem não teve contato com o vírus é vítima. Sempre, naturalmente, por culpa do presidente. E o desemprego também vai para a conta dele, mesmo que ele tenha sido impedido de gerenciar a quarentena e instituir um pouco que fosse de organização no combate à pandemia.

Convencida de que o presidente está encurralado e não há hipótese de que resista “até o fim do mandato”, resta apenas discutir como melhor armar a emboscada derradeira, aquela que o afastará definitivamente do cargo. Mero problema operacional. “A dúvida é sobre como vai sair”, afirma. A jornalista não sabe se a derrubada se dará pela impugnação da chapa Bolsonaro-Mourão no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) ou por um processo de impeachment do presidente no Congresso. A via da cassação eleitoral não é “palatável”, pois “padece de provas incontestáveis”. Bem, sem provas não vale, não é? Também pesa contra essa alternativa a necessidade de derrubar com ele o vice-presidente Hamilton Mourão, pois “Atingir Mourão na derrubada de Bolsonaro pode ser um passo em falso e desnecessário.” 

Já a “a análise de pedidos de impeachment é considerada sem viabilidade no momento,” por causa da quarentena contra o coronavírus, pois “Ninguém articula deposição de presidente da República via internet.” No caminho do impeachment parece que “há muita coisa para se imaginar, mas ainda pouca coisa a ver”. 

Ora, então a presa está encurralada, mas não há como desferir o golpe final? Parece-me haver uma contradição nessa história. Talvez os caçadores e a caça ainda estejam em campo aberto. Ou pode ser que queiram gastar tempo, deixar a presa sangrar. Afinal, a imagem do presidente foi “contaminada pelos piores símbolos do seu governo: os apoiadores presos por atos antidemocráticos, os empresários periféricos financiadores da baixaria, os advogados saídos de becos de arranjos.” A esperança, ao que parece, é que atos de terceiros sejam suficientes para que se feche completamente o cerco.

Uma coisa me parece incontestável, no entanto. Para resistir à ofensiva permanente, o presidente viu-se obrigado a “apostar todas as suas fichas no Centrão”, que conta com vários dos caçadores em seu meio. Mas o Centrão é bicho difícil de satisfazer, e a pandemia deixou o governo sem recursos para alimentar a fera a contento. Querem cargos agora e votos no fim do ano. Depois disso, “se o cofre a proteger estiver vazio, enfraquecido, isolado, o grupo embarcará, como é de sua natureza, na expectativa de poder futuro.” E depois de tudo isso, o presidente ainda será acusado de fazer a tal velha política.

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